Talvez o futuro da emissão fiscal não tenha telas, campos ou menus. Talvez comece simplesmente com alguém dizendo o que precisa ser feito.
Durante décadas, emitir uma nota fiscal significou abrir um sistema, localizar a operação correta, selecionar um cliente, informar produtos, quantidades, preços, tributação, transporte, condições de pagamento e uma série de outros dados. Construímos excelentes softwares para tornar esse processo cada vez mais rápido e seguro. Mas a inteligência artificial começa a permitir uma pergunta diferente: e se o usuário não precisasse mais aprender a operar o software?
Imagine que estou dentro do meu carro e começo uma conversa com minha inteligência artificial: “Emita uma nota fiscal para o cliente ABC, com os mesmos produtos do último pedido, mas agora serão 20 unidades, entrega amanhã e pagamento em 28 dias.” A IA entende o pedido, localiza o cliente, consulta o histórico, identifica os produtos, recupera os dados necessários, aplica as regras fiscais e executa a operação. Se faltar alguma informação, ela simplesmente me pergunta. Ao final da conversa, a nota fiscal está emitida, autorizada e pode ser enviada automaticamente ao cliente. Eu não precisei abrir um sistema, procurar uma tela ou preencher um único campo. Apenas conversei com a minha IA.
É essa experiência que começa a mudar minha visão sobre o futuro do software. Não estou falando de pedir para uma inteligência artificial explicar como emitir uma nota fiscal. Estou falando de conversar com ela e, a partir dessa conversa, fazer a operação acontecer. A inteligência deixa de ser apenas uma ferramenta que responde e passa a ser uma interface capaz de compreender intenção e acionar sistemas para executar aquilo que foi solicitado.
Mas não se trata apenas de colocar um chatbot na frente de um emissor de notas fiscais. Isso seria apenas trocar uma interface por outra. A transformação real acontece quando existe inteligência conectada aos dados, às regras fiscais, ao ERP, aos cadastros, aos documentos anteriores e aos serviços necessários para executar a operação. A conversa seria apenas a porta de entrada para uma arquitetura muito mais sofisticada funcionando por trás dela.
Nesse modelo, a inteligência artificial também poderia fazer perguntas quando faltassem informações. “Qual transportadora será utilizada?” “Deseja manter a mesma condição de pagamento da última venda?” “Esta mercadoria será retirada ou entregue?” Em vez de obrigar a pessoa a conhecer todos os campos necessários para uma emissão, o sistema conduz a conversa até reunir as informações necessárias para executar corretamente a operação. A tecnologia começa a se adaptar à pessoa, e não apenas a pessoa à tecnologia.
É justamente aqui que os agentes digitais começam a ganhar importância. Um agente poderia compreender o pedido. Outro, consultar informações fiscais. Outro, acessar os dados do cliente. Outro, validar a operação. Outro, emitir o documento e acompanhar sua autorização. E, concluída a emissão, outros agentes poderiam enviar o XML e o DANFE ao cliente, atualizar o ERP, comunicar outras áreas e até iniciar o acompanhamento da entrega. Uma pequena conversa poderia colocar diversos serviços digitais em movimento.
Isso muda também a maneira como penso o futuro dos produtos da VARITUS. Talvez nosso próximo grande desafio não seja simplesmente criar novas telas ou acrescentar mais funcionalidades às plataformas. Pode ser construir uma camada de inteligência capaz de compreender aquilo que o cliente deseja realizar e transformar essa intenção em execução segura. É uma das direções que estamos estudando quando falamos de agentes, OaaS e de uma inteligência fiscal integrada às operações das empresas.
Naturalmente, quanto mais autonomia entregamos à inteligência artificial, mais importantes se tornam a governança, a segurança, as permissões e a rastreabilidade. Uma empresa precisa saber quem solicitou determinada operação, quais informações foram consultadas, quais regras foram aplicadas, quais agentes participaram da execução e quem possui autoridade para aprovar determinadas ações. O futuro não será simplesmente automatizado. Precisará ser também auditável.
Talvez estejamos chegando a uma fase em que muitos softwares empresariais continuarão existindo, mas ficarão cada vez menos visíveis. APIs, bancos de dados, motores fiscais, integrações e sistemas continuarão realizando uma enorme quantidade de trabalho. O que poderá desaparecer é justamente a obrigação de uma pessoa conhecer toda essa complexidade para conseguir executar uma tarefa.
Ontem escrevi que o próximo software da VARITUS talvez nem pareça um software. Hoje consigo visualizar isso de maneira muito concreta: posso estar dentro do meu carro, conversar com minha IA, solicitar uma emissão e, poucos instantes depois, meu cliente receber a nota fiscal. Para mim, essa é uma imagem poderosa do que está por vir. A pessoa expressa sua intenção. A inteligência compreende. Os agentes organizam. Os sistemas executam.
E se emitir uma nota fiscal fosse apenas uma conversa? Talvez essa pergunta diga muito mais sobre o futuro do software do que sobre a própria nota fiscal.
