O verdadeiro sucesso não está em produzir mais durante alguns anos, mas em preservar a energia, a lucidez e a saúde para continuar realizando, liderando e vivendo por muitas décadas.
Vivemos em uma sociedade que admira a alta performance. Celebramos empresários que trabalham intensamente, executivos que entregam resultados extraordinários, atletas que superam seus limites e líderes que parecem ter energia inesgotável. Eu também admiro a disciplina, a dedicação e a capacidade humana de realizar coisas extraordinárias. Mas, com o passar dos anos, tenho compreendido algo que considero essencial: não existe alta performance verdadeiramente sustentável quando sacrificamos a própria saúde para alcançá-la. E, na era da inteligência artificial, em que tudo parece acontecer cada vez mais rapidamente, essa reflexão se torna ainda mais necessária.
Durante muito tempo, o mundo empresarial associou produtividade à quantidade de horas trabalhadas. Dormir pouco, não ter tempo para se alimentar adequadamente, abandonar atividades físicas e viver permanentemente sob pressão passaram a ser interpretados, em determinados ambientes, como demonstrações de comprometimento. Criamos uma cultura na qual estar ocupado parece mais importante do que estar bem. Entretanto, o corpo e a mente não funcionam como máquinas que podem operar indefinidamente sem manutenção. Em algum momento, a conta chega. E, muitas vezes, ela é cobrada justamente quando mais precisamos de energia, clareza e equilíbrio.
Como empresário, conheço as responsabilidades de liderar uma organização, cuidar de pessoas, enfrentar mudanças tecnológicas, tomar decisões difíceis e continuar construindo o futuro. A inteligência artificial está acelerando transformações profundas, exigindo que empresários e executivos aprendam, desaprendam e se reinventem continuamente. Essa velocidade cria oportunidades extraordinárias, mas também aumenta a pressão emocional e mental. Não basta preparar nossas empresas para o futuro. Precisamos cuidar da nossa saúde para viver esse futuro. Afinal, de que adianta construir uma organização extraordinária se não tivermos condições físicas e emocionais de acompanhar suas conquistas?
O esporte tem sido um grande professor nessa jornada. Na corrida, no ciclismo, na natação e, especialmente, no hipismo, ao qual tenho me dedicado mais recentemente, também pela oportunidade de compartilhar essa experiência com meus netos, que praticam o esporte comigo, aprendi que desempenho não depende apenas de intensidade. Depende de preparação, técnica, concentração, recuperação e respeito aos próprios limites. Um atleta que treina intensamente, mas ignora o descanso, compromete sua evolução. Um cavaleiro que perde o equilíbrio emocional prejudica sua comunicação com o cavalo. O mesmo acontece na liderança. Um empresário exausto pode continuar tomando decisões, mas dificilmente terá a mesma lucidez, paciência e sensibilidade de alguém que preserva sua saúde.
Também precisamos ampliar nossa compreensão sobre o que significa ser saudável. Não estamos falando apenas de exames médicos, alimentação equilibrada ou exercícios físicos. Saúde envolve qualidade do sono, estabilidade emocional, relacionamentos, espiritualidade, propósito e capacidade de encontrar momentos de tranquilidade em meio às responsabilidades. Podemos apresentar excelentes indicadores profissionais e, ao mesmo tempo, estar emocionalmente esgotados. Podemos conquistar reconhecimento no mercado e perder a conexão com as pessoas que mais amamos. Alta performance não deveria significar vencer profissionalmente enquanto perdemos qualidade de vida.
Existe ainda uma responsabilidade que considero fundamental para quem ocupa posições de liderança: o exemplo. A cultura de uma empresa não é formada apenas pelos valores escritos nas paredes, mas pelos comportamentos que seus líderes demonstram diariamente. Quando um empresário glorifica jornadas excessivas, ignora sinais de esgotamento e transmite a ideia de que descansar significa falta de comprometimento, acaba influenciando negativamente toda a organização. Por outro lado, quando demonstra disciplina no cuidado com a própria saúde, respeita os momentos de recuperação e incentiva uma rotina equilibrada, contribui para construir uma cultura mais humana e sustentável. Afinal, não podemos defender o bem-estar das pessoas enquanto ignoramos o nosso próprio.
Tenho refletido cada vez mais sobre a relação entre longevidade, realização e legado. Quero continuar empreendendo, aprendendo, escrevendo, praticando esportes, convivendo com meus filhos e netos e participando ativamente da transformação que estamos vivendo. Mas tudo isso exige uma condição fundamental: estar bem para continuar presente. Não podemos controlar todas as circunstâncias da vida, nem garantir que teremos saúde permanentemente. Entretanto, podemos assumir maior responsabilidade pelas escolhas que fazemos diariamente. Cuidar da saúde não elimina os desafios, mas aumenta nossas possibilidades de enfrentá-los com energia e discernimento. Quero viver muitos anos, mas, acima de tudo, quero viver bem os anos que tiver pela frente.
A própria inteligência artificial, tema recorrente das minhas reflexões, poderá contribuir significativamente para esse novo entendimento de performance. Teremos ferramentas cada vez mais capazes de organizar agendas, automatizar atividades repetitivas, analisar informações e apoiar decisões. Isso deveria nos permitir dedicar mais tempo às atividades que realmente exigem nossa presença humana. Entretanto, existe um risco: utilizar toda essa eficiência apenas para assumir mais compromissos e aumentar ainda mais a sobrecarga. Se a inteligência artificial nos permitir produzir o dobro, mas também nos levar a trabalhar o dobro, talvez estejamos utilizando mal uma das maiores oportunidades tecnológicas da nossa geração. O verdadeiro avanço tecnológico não deveria apenas nos tornar mais produtivos, mas também nos ajudar a viver melhor.
Talvez uma das maiores demonstrações de maturidade de um líder seja compreender que sua saúde não pode ser tratada como aquilo que sobra depois de todas as outras prioridades. Ela precisa fazer parte da estratégia de vida e, consequentemente, da estratégia profissional. Resultados extraordinários continuam sendo importantes, assim como ambição, crescimento e disciplina. Mas quero defender uma visão mais completa de sucesso: aquela em que conseguimos crescer sem destruir aquilo que sustenta nossa capacidade de continuar crescendo. Porque, no final, não existe grande legado quando sacrificamos a própria vida tentando construí-lo. Alta performance sustentável é realizar muito, por muito tempo, sem deixar de viver bem.
