Aquilo que o líder tolera em silêncio acaba se tornando parte da cultura da empresa.
Toda empresa enfrenta algum nível de desorganização. Processos mudam, pessoas cometem erros, prioridades se alteram e imprevistos aparecem. O problema começa quando aquilo que deveria ser exceção passa a ser tratado como normal. Informações espalhadas, tarefas sem responsáveis, reuniões sem decisões, prazos que não são cumpridos e processos que ninguém consegue explicar. Aos poucos, a desorganização deixa de ser um problema e passa a fazer parte da cultura.
Existe uma diferença importante entre uma empresa que está momentaneamente desorganizada e uma empresa que autorizou a desorganização. Autorizar não significa necessariamente dizer que ela é aceitável. Muitas vezes a autorização acontece pelo silêncio. O líder vê, percebe, reclama ocasionalmente, mas não corrige a causa. Quando isso se repete, a organização aprende rapidamente qual é o verdadeiro padrão permitido.
Tenho pensado muito sobre isso também nas minhas empresas. Quanto mais avançamos em tecnologia, inteligência artificial e agentes digitais, mais evidente fica uma realidade: tecnologia não corrige desorganização estrutural. Na verdade, ela pode amplificá-la. Automatizar um processo ruim apenas faz com que um processo ruim aconteça mais rápido.
Agentes digitais precisarão encontrar dados confiáveis, processos definidos, responsabilidades claras e regras de acesso bem estabelecidas. Uma inteligência artificial pode executar tarefas em segundos, mas precisa saber onde buscar a informação, qual decisão pode tomar, quando deve pedir autorização e quem responde pelo resultado. Empresas que não conseguem responder a essas perguntas para seus próprios colaboradores terão ainda mais dificuldade quando pessoas e agentes começarem a trabalhar juntos.
Organização, entretanto, não significa burocracia. Uma empresa pode ser extremamente organizada e continuar rápida, simples e flexível. Organizar é tornar claro o que precisa acontecer, quem é responsável, quais informações são necessárias e qual resultado é esperado. A burocracia cria etapas desnecessárias. A organização elimina dúvidas desnecessárias.
Também existe uma responsabilidade importante da liderança nesse processo. Líderes precisam observar aquilo que estão tolerando. Um prazo descumprido sem consequência. Uma reunião sem preparação. Uma informação importante que ninguém sabe onde encontrar. Uma decisão que fica esperando indefinidamente. Isoladamente parecem pequenos problemas. Repetidos durante meses, transformam-se na forma como a empresa funciona.
Cultura não é somente aquilo que escrevemos nos valores da empresa. Cultura também é aquilo que permitimos acontecer todos os dias. Se uma organização declara excelência, mas aceita improvisação permanente, o verdadeiro valor não é excelência. Se diz valorizar responsabilidade, mas ninguém sabe quem responde por cada entrega, responsabilidade é apenas uma palavra na parede.
Talvez uma das funções mais importantes do empresário nesta nova fase seja justamente reduzir a desorganização antes de aumentar a automação. Revisar processos. Eliminar etapas. Organizar dados. Definir responsáveis. Estabelecer padrões. E somente depois conectar inteligência artificial, sistemas e agentes capazes de executar parte dessas atividades.
O futuro das empresas será cada vez mais tecnológico, mas continuará exigindo disciplina de gestão. Antes de perguntar quantos agentes digitais sua empresa terá, talvez exista uma pergunta mais simples e mais desconfortável: qual desorganização você está autorizando hoje apenas porque se acostumou com ela?
