A complexidade tributária continuará existindo. A diferença é que a tecnologia deverá absorvê-la para que empresas e pessoas possam simplesmente operar.
Durante décadas, a área fiscal foi construída como uma etapa visível e indispensável da operação. Emitir documentos, conferir tributos, validar informações, acompanhar obrigações, corrigir rejeições e garantir conformidade sempre exigiu sistemas, pessoas, processos e controles específicos. Tudo isso continuará existindo. O que acredito que mudará profundamente é a forma como as empresas perceberão essa estrutura. O futuro da área fiscal será invisível.
Ontem escrevi sobre a possibilidade de emitir uma nota fiscal por meio de uma simples conversa. Imagine estar dentro do carro e dizer à inteligência artificial: “Emita a nota daquele pedido aprovado agora pela manhã e envie para o cliente.” A inteligência compreende o contexto, identifica a operação, consulta os dados necessários, aplica as regras tributárias, gera o documento, transmite para a autoridade fiscal, integra com os sistemas envolvidos e entrega a nota ao cliente. Para quem solicitou, aconteceu apenas uma conversa. Por trás dela, uma enorme estrutura fiscal trabalhou.
Essa talvez seja uma das maiores transformações que veremos nos próximos anos. A complexidade não desaparecerá. Ela será absorvida pela tecnologia. Continuaremos tendo legislação, regras tributárias, exceções, validações, documentos eletrônicos, integrações e obrigações. Mas cada vez menos o usuário precisará conhecer o caminho necessário para que tudo isso aconteça.
Hoje ainda construímos boa parte dos processos empresariais obrigando uma pessoa a compreender o sistema. No futuro, será o sistema que precisará compreender a operação da empresa. Ao receber um pedido, uma venda, uma contratação, uma movimentação logística ou uma prestação de serviço, a inteligência poderá identificar automaticamente quais consequências fiscais precisam ser executadas.
Isso muda inclusive o significado de automação fiscal. Automatizar não será apenas importar um XML, preencher campos automaticamente ou integrar dois sistemas. Será criar uma camada inteligente capaz de acompanhar a operação desde o seu nascimento, entender o que está acontecendo e executar aquilo que for necessário para manter a empresa funcionando em conformidade.
É justamente nessa direção que acredito que o software empresarial está caminhando. Menos telas. Menos cliques. Menos necessidade de conhecer códigos, campos e sequências operacionais. Mais intenção, contexto e execução. O melhor processo fiscal talvez seja aquele que acontece corretamente sem que alguém precise parar o trabalho para executá-lo.
Isso também transforma o papel dos profissionais da área fiscal. Quanto mais a tecnologia assumir atividades repetitivas, consultas, conferências e determinadas execuções, mais importante será o conhecimento para interpretar situações complexas, desenhar regras, supervisionar exceções, analisar riscos e participar das decisões do negócio. O profissional deixa gradualmente de ser apenas operador do processo e passa a ser arquiteto e supervisor da inteligência que executa esse processo.
Na VARITUS, tenho pensado cada vez mais nossas plataformas a partir dessa perspectiva. Não simplesmente adicionar inteligência artificial aos softwares que já existem, mas imaginar como seria reconstruir a operação se começássemos hoje. Talvez nosso cliente não queira aprender onde emitir uma nota fiscal. Ele simplesmente queira vender, entregar, receber e administrar sua empresa. A tecnologia deveria cuidar do restante.
Quando isso acontecer em escala, talvez quase ninguém perceba a área fiscal funcionando. A venda acontece. O pedido é processado. A mercadoria sai. O documento é emitido. Os tributos são tratados. Os registros são feitos. As exceções são sinalizadas. E as pessoas interferem somente quando realmente precisam decidir alguma coisa.
O futuro da área fiscal não será menos importante. Será ainda mais importante, apenas muito menos visível.
