Estamos saindo da era das telas, menus e cliques para entrar na era da intenção, do contexto e da execução.
Durante décadas, aprendemos a reconhecer um software pela sua interface. Uma tela de login, menus, botões, campos, cadastros, relatórios e uma sequência de comandos que precisávamos aprender para realizar determinada tarefa. Quanto mais sofisticado o sistema, maior normalmente era a quantidade de funcionalidades disponíveis. Mas começo a acreditar que o próximo grande salto do software empresarial será justamente fazer grande parte dessa complexidade desaparecer.
Ontem escrevi que o software tradicional está sendo redesenhado pela inteligência artificial. Hoje quero avançar um pouco mais nessa reflexão. Talvez o software do futuro não seja algo que abrimos para trabalhar. Talvez seja uma inteligência presente no fluxo da operação, compreendendo o contexto, recebendo uma intenção e mobilizando dados, sistemas e agentes para produzir um resultado.
Imagine um empresário dizendo: “Mostre quais clientes estão com risco de atraso, identifique os motivos e prepare uma ação para cada um.” Ele não precisará necessariamente abrir o financeiro, selecionar filtros, exportar uma planilha, montar um relatório e depois decidir o que fazer. O sistema poderá compreender o objetivo, consultar diferentes fontes, analisar as informações, apresentar as conclusões e, mediante as permissões corretas, executar parte das ações necessárias.
Nesse cenário, a interface deixa de ser o centro do software. O centro passa a ser a capacidade de compreender a intenção e entregar o resultado. O usuário não precisa necessariamente conhecer o caminho dentro do sistema. Precisa saber explicar aquilo que deseja alcançar. A tecnologia se encarrega de encontrar os dados, utilizar as ferramentas corretas, respeitar regras e devolver uma resposta ou realizar uma execução.
É aqui que agentes digitais, inteligência artificial, APIs e conceitos como OaaS – Outcome as a Service começam a se encontrar. Em vez de vender apenas funcionalidades, acredito que as empresas de tecnologia passarão cada vez mais a entregar resultados. O cliente deixa de perguntar quantas telas ou recursos existem no sistema e começa a perguntar: “O que essa plataforma consegue resolver para mim?”
Na área fiscal, por exemplo, talvez o empresário não queira mais aprender qual tela utilizar para emitir determinado documento. Ele simplesmente poderá dizer: “Fature este pedido para o cliente, considerando a tributação correta, e me avise se houver alguma inconsistência.” Por trás dessa frase existirão regras tributárias, cadastros, validações, certificados digitais, integrações, documentos fiscais e sistemas extremamente complexos. Mas essa complexidade não precisa continuar sendo transferida para quem utiliza a tecnologia.
É uma mudança importante também para quem desenvolve software. Durante muitos anos, uma parte relevante do nosso trabalho foi transformar processos empresariais em telas. Agora começaremos a transformar processos em capacidades inteligentes. Será necessário organizar dados, construir APIs, estabelecer permissões, desenvolver agentes, criar mecanismos de auditoria e permitir que inteligências diferentes trabalhem de forma coordenada.
Nas minhas empresas, principalmente na VARITUS, que é uma empresa SaaS, é esse futuro que quero ajudar a construir. Não se trata simplesmente de colocar inteligência artificial dentro dos sistemas existentes, mas de repensar a relação entre pessoas, software e operação. Quero que nossas plataformas caminhem para um modelo no qual a tecnologia compreenda cada vez mais aquilo que o cliente pretende realizar e assuma progressivamente a complexidade necessária para fazer acontecer.
Talvez daqui a alguns anos olhemos para algumas telas cheias de menus, campos e botões da mesma maneira que hoje olhamos para antigos softwares distribuídos em disquetes. Eles foram fundamentais para chegarmos até aqui. Mas a próxima geração de tecnologia poderá ser quase invisível. O melhor software talvez seja justamente aquele que deixa de exigir que você aprenda a utilizá-lo, porque ele aprendeu a trabalhar com você, e para você.
