Adão Lopes

Quando a IA deixa de responder e começa a executar

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Adão Lopes

24 Set 2026 · 4 min de leitura

Quando a IA deixa de responder e começa a executar

O próximo passo da inteligência artificial será transformar intenção em execução e software em resultado.

Nos últimos dias tenho escrito sobre uma mudança que considero muito maior do que simplesmente utilizar inteligência artificial dentro das empresas. Primeiro vieram os LLMs e descobrimos que uma máquina poderia escrever, analisar, programar, resumir e conversar conosco. Agora começamos a entrar em uma nova fase. A IA deixa de ser apenas uma ferramenta que responde perguntas e começa a participar da execução dos processos.

Imagine um empresário dizendo pelo WhatsApp: “Fature este pedido e envie a nota para o cliente.” Hoje, normalmente, alguém precisa receber essa solicitação, acessar um sistema, localizar o pedido, conferir informações, preencher campos, executar a emissão, acompanhar a autorização e depois enviar o documento. Em uma arquitetura baseada em agentes de IA, integrações e sistemas especializados, grande parte desse processo poderá acontecer a partir de uma simples intenção expressada pelo usuário.

Essa mudança altera uma lógica que utilizamos há décadas. Até agora, ensinamos pessoas a operar softwares. Criamos menus, botões, campos, telas, manuais e treinamentos para que o usuário aprendesse como o sistema funciona. A inteligência artificial começa a inverter essa relação. Cada vez mais, será responsabilidade da tecnologia compreender aquilo que a pessoa deseja, identificar os sistemas necessários, executar as tarefas e devolver o resultado.

É nesse contexto que um conceito começa a ganhar importância para mim: OaaS — Outcome as a Service. Durante muitos anos, construímos o mercado de SaaS, o Software as a Service. Entregamos plataformas, funcionalidades e ferramentas para que o cliente realizasse determinado trabalho. O OaaS propõe uma mudança de perspectiva: em vez de colocar a ferramenta no centro, colocamos o resultado esperado pelo cliente.

Parece uma diferença pequena, mas muda completamente a maneira de pensar produtos. O cliente não quer necessariamente emitir uma nota fiscal. Ele quer faturar uma venda. Não quer navegar por diferentes telas para verificar documentos. Quer saber que sua operação está correta. Não quer aprender toda a complexidade existente por trás de uma integração. Quer que o processo funcione. Quando entendemos isso, começamos a perceber que a tecnologia pode assumir uma parcela muito maior da operação.

Essa é uma mentalidade que quero desenvolver dentro da VARITUS nos próximos anos. Não queremos apenas perguntar quais funcionalidades devemos acrescentar às nossas plataformas. Queremos perguntar: qual resultado nosso cliente está tentando alcançar e quanto desse processo podemos executar por ele? Isso significa estudar profundamente agentes de IA, LLMs, integrações, APIs, MCP, motores especializados e novas arquiteturas capazes de aproximar cada vez mais a intenção do cliente do resultado final.

Isso não significa que os sistemas desaparecerão ou que toda decisão será entregue à inteligência artificial. Pelo contrário. Quanto maior a capacidade de execução, maior deverá ser a governança. Permissões, segurança, rastreabilidade, validações, regras de negócio e participação humana serão fundamentais. Uma IA que responde incorretamente pode gerar uma informação errada. Uma IA que executa incorretamente pode gerar consequências fiscais, financeiras e operacionais. Autonomia precisará caminhar junto com responsabilidade.

Também quero que nossa equipe compreenda profundamente essa mudança. Durante anos, a pergunta natural de uma empresa de tecnologia foi: “Como vamos desenvolver esta funcionalidade?”. Quero que passemos a perguntar primeiro: “Que problema estamos resolvendo e qual resultado precisamos entregar?” Tecnologia, inteligência artificial e software são meios. O objetivo final precisa continuar sendo gerar valor para quem está do outro lado.

Talvez essa seja uma das maiores transformações do software nos próximos anos. Podemos estar caminhando de um mundo em que o cliente compra tecnologia para executar uma operação para outro em que compra cada vez mais o próprio resultado. Ainda estamos no início dessa transformação, mas é nessa direção que quero que a VARITUS pense, experimente e construa seu próximo ciclo. Menos operação para o cliente. Mais resultado entregue pela tecnologia.